A tradução criativa e diagramas acústicos

A tradução criativa é uma operação diagramática. O diagrama é a principal (para muitos, é a única; ver Johansen 1993) forma de adquirirmos novo conhecimento sobre relações. Esta noção fornece uma estrutura teórica não explorada por Haroldo de Campos (tradução como crítica) desvinculada da noção de similaridade, a que sempre esteve restrita.

A fisicalidade do signo observado, ou manipulado, é uma relação, um diagrama, ou uma “multitude ordenada”.  Ela não se confunde com a própria substância, ou com o material, de que é feito o signo, como uma entidade observável (háptica, acústica ou visual), embora esteja também vinculada a propriedades físicas.

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Sobre o fenômeno dos diagramas verbais e acústicos, o próprio Peirce afirma que sistemas de signos sonoros podem produzir representações diagramáticas da realidade – “Tal diagrama pode ser ou auditivo ou visual, as partes separadas em um caso no tempo, e em outro no espaço (…) Tal método de formar um diagrama é chamado de álgebra. Toda fala não é mais do que uma álgebra, sendo os signos repetidos as palavras, que tem relações em virtude dos significados associados a elas” (CP 3.418). A distância temporal entre as palavras, na fala, cujas relações são definidas por preposições e verbos, e a distância espacial entre as palavras escritas, sugere uma relação entre os objetos, de um modo diagramático. Assim, a linguagem ordinária, sob tais aspectos, é similar a equações algébricas (CP 2.279).

Para Pharies (1985, p. 48), que é um linguista interessado em operações icônicas, “os sons também podem representar geometricamente, como frequentemente acontece com ícones envolvidos em índices, através de certas propriedades de volume, altura e duração. Volume e altura são, ambos, naturalmente capazes de diagramar a quantidade ou intensidade de qualquer variável. […] A duração dos sons e os espaços de silêncio entre eles são naturalmente aptos para representar relações envolvendo tempo e velocidade.”

Referências:

Johansen, Jørgen Dines, Dialogic Semiosis, Indiana, Indiana University Press, 1993.
Pharies, David A., Charles Sanders Peirce and the Linguistic Sign, Amsterdão, John Benjamins Publishing, 1985.

João Queiroz

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