Klangfarbenmelodie — “esperança por uma melodia de timbres” com palavras

No texto introdutório à série de poemas Poetamenos, Augusto de Campos estabelece uma relação direta com a melodia de timbres de Webern, e escolhe o termo Klangfarbenmelodie para representar sua “esperança por uma melodia de timbres” com palavras.

Klangfarbenmelodie parece se referir a uma técnica, mesmo não se constituindo independentemente como tal, nem na obra de Schoenberg, nem de Webern, nem posteriormente. As propostas composicionais de uma Klangfarbenmelodie se relacionam diretamente com outra técnica — serial ou serialismo. Sempre que uma série contiver todos os doze sons que compõem uma escala cromática, ela é denominada dodecafônica.

No domínio da música serial, há uma longa discussão musicológica sobre qual deveria ser o emprego da Klangfarbenmelodie em diferentes obras, de distintos compositores, e em diversos períodos históricos. Após a sugestão do termo “melodia de timbres”, por Schoenberg, algumas atribuições sobre sua utilização foram feitas, sobretudo por musicólogos. A imprecisão entre o termo e sua sistematização como técnica composicional independente é uma característica de tais atribuições. O termo apresenta imprecisões, tanto musicais, quanto musicológicas e históricas.

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Schoenberg

No caso de Poetamenos, soma-se à dificuldade em se compreender a Klangfarbenmelodie como uma técnica, as transposições culturais sofridas pela música serial na América Latina. Mas se consideramos a Klangfarbenmelodie uma técnica composicional, no contexto serial, podemos encontrar um paralelo entre o uso do timbre por Webern e por Augusto de Campos. Poetamenos revela um uso das cores-timbres que corresponde ao uso do timbre que Adorno relaciona à obra de Webern. Trata-se da ideia de uma mudança de timbres na sequência melódica, fragmentando a melodia. Augusto de Campos apresenta essa ideia, de uma sequência melódica, logo na introdução à série: “uma melodia contínua deslocada de um instrumento para outro, mudando constantemente sua cor”.

A operação indica uma sucessão melódica, não uma repetição de alturas. A mudança de timbre em alturas idênticas não é explorada em Poetamenos, em letras, sílabas ou outras estruturas lexicais. O caso mais exemplar é o poema lygia fingers, onde a sílaba ly se repete várias vezes, sempre com a mesma cor vermelha.

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Em dias, dias, dias, a repetição da palavra (dias) em verde. Já a mudança de timbre em uma sequência melódica é frequente, e a fragmentação de estruturas vocabulares, como a quebra da melodia de Webern, descrita por Adorno, é mais facilmente observada. Mas para isso, duas outras correspondências entre música e poesia devem ser consideradas. Em primeiro lugar, para que a descrição de Adorno possa corresponder ao que observamos no poema, a melodia musical deve estar supostamente relacionada ao sistema verbal, e à certa unidade semântica, como uma estrutura fragmentada. Em segundo lugar, o timbre (musical) deve estar relacionado à cor no poema — da palavra “Farbe” (cor), em Klangfarbenmelodie —, embora os termos que se aglutinam sejam Klangfarben (timbres) e Melodie (melodia), e não “cores do som”, Klang e Farben. Este último sentido tem sido largamente relacionado a série Poetamenos pela literatura secundária.

Marta Castello-Branco, Ana Fernandes, João Queiroz

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