Poetamenos, a Klangfarbenmelodie, uma “fantasia do futuro”

A Klangfarbenmelodie surgiu como uma projeção, não como uma técnica estrita, na obra de Schoenberg, uma “fantasia do futuro” (SCHOENBERG, 1922, p. 507). Esta projeção é retomada no domínio da poesia. Qualquer discussão sobre seu desenvolvimento deve incluir contribuições musicológicas e históricas, porque é impossível tratá-la de forma inequívoca, relacionada a um compositor específico, ao próprio Schoenberg, a Webern, ou qualquer outro compositor, sem excursos musicológicos. É necessário compreender a Klangfarbenmelodie em termos contextuais. Sua replicação como técnica, especialmente quando relacionada à obra de Webern, não pode ser feita. No entanto, a literatura secundária sobre o Poetamenos descreve o uso das cores como a realização de uma Klangfarbenmelodie, relacionada a obra de Webern, sem qualquer discussão musicológica detalhada sobre sua realização. Klangfarbenmelodie aparece, nesta literatura, como uma técnica, não como um fenômeno complexo com diversas e divergentes implicações terminológicas, históricas e conceituais.

shoenberg

O próprio Augusto de Campos indica, na introdução aos poemas, que não são apenas as cores que definem uma Klangfarbenmelodie, mas um “ideograma” formado por “frase/palavra/sílaba/letra(s), cujos timbres se definem por um tema gráfico-fonético ou “ideogrâmico” (1973). Esta “combinação de elementos” transcria a função de séries melódicas, rítmicas, etc., que, na obra de Schoenberg e de seus alunos, define a “música serial” (ou serialismo), técnica composicional cujos procedimentos podem ser replicados, como foram por muitos compositores. Em nossa argumentação, a técnica serial exerceu o papel de signo-fonte na transcriação de Augusto de Campos.

Poetamenos é um ícone do serialismo de Webern. Também sugerimos que a coesão e concisão webernianas estão entre as propriedades mais importantes na transcriação. Ele transcria a técnica serial weberniana, através de um pequeno acervo lexical, fragmentação deste acervo, concisão e coesão criadas pela justaposição associativa e acumulativa dos fragmentos. Mais radicalmente, Poetamenos transcria a técnica que cria a dialética “som versus silêncio”, “coesão formal (cf. Augusto de Campos, “sem precedentes”) versus fragmentação”, e revela, reinventando-os intersemioticamente, os protocolos e os efeitos históricos criados pela técnica. Algumas das propriedades transcriadas do serialismo weberniano, que inspiraram muitos compositores contemporâneos, foram a abstração da linha musical, a fragmentação da melodia entre registros graves, médios e agudos, a atenção a durações proporcionais e a permutação de elementos, além de simetrias temporais.

Marta Castello-Branco, Ana Fernandes, João Queiroz

SCHOENBERG, Arnold. Harmonielehre. Wien: Universal Edition, 1922.

%d bloggers like this:
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star