Tradução criativa = tradução icônica

O poeta e ensaísta Haroldo de Campos define tradução criativa, ou transcriação, no “avesso da chamada tradução literal”, como prática isomórfica (ou paramórfica):

camposserá sempre criação paralela, autônoma, porém recíproca. […] Uma tradução isomórfica seria, por definição, uma tradução icônica. Lê-se no meu ensaio [Da Tradução como Criação e como Crítica]: ‘Numa tradução dessa natureza não se traduz apenas o significado, traduz-se o próprio signo, ou seja, sua fisicalidade, sua materialidade mesma (propriedades sonoras, de imagética visual, enfim tudo aquilo que forma, segundo Charles Morris, a iconicidade do signo estético, entendido por signo icônico aquele que é de certa maneira similar aquilo que ele denota’. (Campos  1997: 52)

A identificação de Haroldo (tradução criativa = tradução icônica) tem muitas consequências. O ícone é um signo bastante estranho. Ele apresenta diretamente seu objeto através de sua forma, estrutura ou constituição material.

Ele parece estar indissoluvelmente ligado a seu objeto, um análogo de sua própria constituição (Ransdell 1986). Sabemos, ao menos desde Charles Morris, que o signo estético é de natureza predominantemente icônica. Jay Zeman, e Décio Pignatari, também exploraram esta tese. Mas as idéias de analogia e similaridade, centrais à abordagem de Haroldo, enfaticamente associadas aos ícones, podem ser desenvolvidas em novas direções. Quando um critério operacional é adotado o ícone é definido como qualquer coisa ou processo cuja manipulação pode revelar mais informação sobre seu objeto, e a álgebra, a sintaxe, os grafos, e as formalizações de todos os tipos devem ser reconhecidas como ícones:

A chave da iconicidade não é uma semelhança percebida entre o signo e o que ele significa mas, mais do que isso, a possibilidade de fazer novas descobertas sobre o objeto através da observação das características do signo, em si-mesmo. (Hookway 2002: 102)

Esta definição é considerada uma destrivialização da noção de que o ícone é uma relação de similaridade. Os ícones são signos de descobertas. Este ajuste é capaz de conduzir a tese de Haroldo (tradução criativa = tradução icônica) em direções ainda não investigadas. 

ver: Tradução criativa, diagrama e cálculo icônico. Alea: Estudos Neolatinos, v. 12, p. 322-332, 2010.

 

Referências:

Campos, Haroldo de. O Arco-iris Branco. São Paulo: Imago, 1997.

Hookway, C. Truth, Rationality, and Pragmatism: Themes from Peirce. Oxford: Oxford University Press, 2002.

Morris, Charles W. Writings on the General Theory of Signs. Den Haag: Mouton, 1971.

Pignatari, Décio. Semiótica & Literatura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004.

Ransdell, J. On Peirce’s conception of the iconic sign”, em: Sebeok, T., Bouissac, P., Herzfeld, M. & Posner, R. (Eds). Iconicity: Essays on the Nature of Culture. The Netherlands: John Benjamins Publishing Co., 1986. 

Zeman, Jay. The esthetic sign in Peirce’s semiotic, Semiotica, v.19, n.3/4, 1977: 241-258.

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João Queiroz

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