O ícone é uma qualidade que ele possui em si-mesmo

A qualidade representativa do ícone é aquilo que Peirce descreve como uma “pura primeiridade categórica”, que é uma qualidade que ele possui em si-mesmo, independente de qualquer outra coisa. Um caráter interno,

peirceque pertence a ele, em si mesmo, como um objeto sensível, e que ele possuiria de qualquer forma, havendo ou não um objeto na natureza a que ele se assemelhe, ainda que jamais tenha sido interpretado como um signo. (Peirce CP 4.447)

Peirce entendeu rapidamente a fragilidade desta definição. São muitos os perigos relacionados à noção de similaridade, especialmente sua trivilialização como identidade e sua psicologização, podendo referir-se a qualquer objeto por semelhança. Uma superação desta trivialização baseia-se na noção operacional do ícone. No “Syllabus”, a similaridade é assim definida:

uma propriedade distintiva do ícone é que, através de sua observação direta, outras verdades considerando seu objeto podem ser descobertas além daquelas satisfeitas na determinação de sua construção. (Peirce CP 2.279)

Esta propriedade é uma elaboração operacional do conceito de similaridade. O ícone não é somente o único tipo de signo envolvendo uma apresentação direta de qualidades que pertencem a seu objeto; ele é também – e isto equivale ao mesmo – o único signo através do qual, por sua observação direta, se pode descobrir algo sobre seu objeto. Esta definição distingue o ícone de qualquer psicologismo: não importa se signo e objeto, à primeira vista, pareçam similares; o teste decisivo de iconicidade está na possibilidade de manipulá-lo para que uma nova informação apareça. Frederik Stjernfelt tem explorado esta propriedade em diversos trabalhos. Mas Christopher Hookway, antes dele, já nos havia alertado:

A chave da iconicidade não é uma semelhança percebida entre o signo e o que ele significa mas, mais do que isso, a possibilidade de fazer novas descobertas sobre o objeto através da observação das características do signo, em si-mesmo (Hookway 2002: 102).

 

Referências:

Hookway, C. Truth, Rationality, and Pragmatism: Themes from Peirce. Oxford: Oxford University Press, 2002.

Peirce, C.S. The Collected Papers of Charles S. Peirce. C. Hartshorne, C., Weiss, P. & Burks, A.W. (Eds.). Cambridge: Harvard University Press, 1931–1966)

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João Queiroz

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