Humanos são ciborgues

Para o filósofo Andy Clark, seres humanos são ciborgues naturais, simbiontes “cujas mentes e selfs estão distribuídos pelo cérebro biológico e por circuitos não biológicos” (2003: 3). Essa tese está relacionada à nossa capacidade de estender a cognição através de dispositivos não biológicos fundindo (acoplando, integrando, conectando) nossas atividades com muitos artefatos, criando sistemas externos e distribuídos. 

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Não é uma metáfora dizer que “a mente está cada vez menos na cabeça!” (Clark 2003: 4; 2003; 2010) ou “fora de nossas cabeças” (Wheeler 2005: 193). 

Humanos acoplam aos seus corpos uma parafernália de ferramentas para aumentar habilidades perceptivas, motoras e mentais. Os artefatos cognitivos são uma parte constitutiva de nossas vidas — nós alteramos a atenção usando drogas, congelamos o pensamento com alfabetos e notações, organizamos, comparamos e calculamos eventos através de números, gráficos, mapas e diagramas. São várias as ferramentas — lápis, caneta e papel, calculadoras, calendários, notações, modelos, computadores, listas, unidades de medida etc etc. Finalmente, nosso artefato mais importante é a linguagem, um dispositivo profundamente acoplado, que aumenta radicalmente o que podemos fazer em termos de categorização, memória, inferência, aprendizagem, atenção, relações e instituições sociais. 

Nós temos investigado no grupo como o surgimento de novos paradigmas em arte depende de modo muito crucial da introdução de novos artefatos cognitivos. Quando alteramos nossos ambientes de artefatos, e as práticas que eles criam, abrimos novos nichos (cognitivos e/ou semióticos), dando origem a novos padrões de atividade que, por sua vez, modificam ainda mais os ambientes. Esse é um processo acumulativo e contínuo de construção de nichos. Somos construtores de nichos, estendendo a mente no espaço para pensar com ele, e através dele. 

Referências

Clark, Andy. Natural-Born Cyborgs: Minds, Technologies, and the Future of Human Intelligence. Oxford UP, 2003.

Clark, Andy. “Language, embodiment, and the cognitive niche”. Trends in Cognitive Sciences, vol. 10, 2006, pp. 370-372.

Clark, Andy. Supersizing the Mind — Embodiment, Action, and Cognitive Extension. Oxford UP, 2010.

Wheeler, Michael. Reconstructing the Cognitive World – The Next Step. MIT Press, 2005.

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João Queiroz & Pedro Atã

 

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