A invenção do artista e a ontologia histórica de Ian Hacking

O que é um “artista”? O que é um “artista” não é apenas o que ele ou ela fez ou fará, mas o que poderia concebivelmente ter feito, e o que poderia, e pode, fazer. Como isso muda contextualmente, está correto supor que as épocas inventam seus “artistas”. O escaninho que define a natureza do “artista” muda no tempo e no espaço. Ele equivale a invenção de uma região de atividades concebíveis. Nenhuma novidade até aqui. Teorias institucionais da arte já abordaram mais ou menos assim este tema (George Dickie, e outros). A questão mais interessante, diria Ian Hacking, é se esta categoria (“artista”) e seus agentes emergiram juntos. Afirmativa ou negativa a resposta, como se afetaram e se afetam?

Hacking é um dos mais importantes filósofos da ciência do século XX. Ele imagina algo que chama de “nominalismo dinâmico” e “ontologia histórica” para lidar com a relação entre o “mundo real” e a linguagem. (O nominalismo insiste que a única propriedade que os tucanos compartilham, entre si, é o nome que os designa.) Hacking pratica um tipo de realismo científico muito afetado, de um lado, pelo pragmatismo de Charles S. Peirce e William James, e de outro, pela arqueologia de Michel Foulcaut. Ele pergunta: fenômenos como quarks e elétrons possuem uma ontologia menos dependente de variações históricas que bipolaridade, estado democrático de direito, ou homossexualismo? O nominalismo dinâmico que ele desenvolve aposta que sim! A questão é “como” e “porque” dependem menos. Como as classes e nomes afetam a natureza do fenômeno observado e se é possível desenvolver uma teoria geral de invenção das pessoas.

Hacking recorre a muitos autores. Haviam pervertidos no século XIX? Para Arnold Davidson, nao. Esta categoria depende de um “novo entendimento funcional da doença”. Há “personalidades múltiplas” antes de 1875, quando faleceu Mary Reynolds, a dama de MacNish, cuidadosamente descrita pelo Doutor Robert MacNish? Também não. Para muitos, certamente “não” antes do psiquiatra francês Pierre Janet descrever Félida, no início do século XX. Depois dela aconteceu uma avalanche de “personalidades múltiplas”, ou personalidades “cindidas”.

Parece haver, em casos históricos, um estranho fenômeno. Classificações e tipos estáticos (e nominalistas) não hesitam — a palavra “verde” já determinou qualquer experiência que possamos ter sobre esmeraldas. Hacking explora as noções de “tipos naturais” e “tipos interativos”. Embora o primeiro pareça indiferente à minhas opiniões (quarks e elétrons não estão nem aí para o que eu acho deles), eles não são dotados de qualquer essência. Mas os “tipos interativos” reagem imediatamente as classificações e descrições. Então eles são mais facilmente afetados por variações históricas. Qualquer rotulação de um fato no passado não pode ter acontecido num vácuo histórico. Neste vácuo, quem teria se identificado como “artista” teria aceitado passivamente sua seção deste escaninho. Mas esta seção, para Hacking, não pode ser “neutra” com relação ao fenômeno observado, nem deve existir independente dele.

Das atividades mais radicalmente experimentais, àquelas que acontecem no limite da auto-ajuda para deleite de amigos solidários e emocionados — qualquer rotulação do artista deve incluir um variado cardápio de classes cujos processos afetam e são afetados por seus agentes. Há uma dinâmica top-down/bottom-up — de uma comunidade que cria uma realidade que os agentes disputam para si (top-down) versus o agente rotulado que cria uma realidade que a comunidade de especialistas deve encarar (bottom-up). Isso, para Hacking, é o mais próximo de uma “teoria de invenção de pessoas” que se pode cobiçar.

(No proximo POST, vou relacionar alguns dos principais componentes do nominalismo dinâmico de Hacking a recente exposição THE ARTIST, do Moderna Museet Malmö, em Malmö, e ao trabalho que desenvolvo com Pedro Atã, de Linnaeus University, sobre “movimento artístico como sistema cognitivo distribuído”. Nossos principais exemplos são de literatura e de dança.)

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