Quarenta Clics em Curitiba

Quarenta Clics em Curitiba é um raro, quase sem precedentes, trabalho colaborativo de fotolivro de literatura brasileira. Publicado em 1976, trata-se de uma colaboração entre Jack Pires e Paulo Leminski, considerado um dos mais importantes escritores brasileiros da segunda metade do século XX. Isso já seria motivo para uma abordagem mais atenta da obra. Especialmente sabendo que trata-se da única experiência de Leminski com este gênero (fotolivro), e sua primeira experiência com haicais. Mas ninguém dá bola pro Quarenta Clics. Ignorado pela crítica e historiografia, o trabalho não aparece em nenhuma antologia dedicada ao gênero. Um dos motivos para tal negligência deve-se, certamente, a dificuldades metodológicas. Quarenta Clics é um complexo fenômeno semiótico no qual, pelo menos, dois sistemas ou processos de linguagem (poesia e fotografia) são interpretados como estando em “densa relação” — trata-se de um exemplo típico de fenômeno intermidiático. Há um campo especializado de pesquisa dedicado aos estudos de intermidialidade. Mas Quarenta Clics nunca foi objeto de interesse dos pesquisadores deste campo.

40 impressões p&b, de Pires, são “combinadas” a 40 poemas de Leminski, e organizadas em pranchas de dimensões idênticas (24cm x 24cm). As pranchas (foto-poemas) resultam de relações entre imagens fotográficas, poemas, e diversas propriedades relevantes da página, como fonte tipográfica, distribuição dos espaços gráficos, entre outras. Muitos autores tem tentado classificar este fenômeno (intermidialidade). Entre as classes propostas por Irina Rajewsky (combinação de mídias) e Claus Cluver (intermidia, mixmidia, multimidia), Quarenta Clics em Curitiba pode ser caracterizado como (i) um caso de “combinação midiática”, porque há ao menos duas mídias relacionadas (fotografia e poesia) e, entre duas das três classes de combinação, (ii) como um caso multimidiático porque ambas (fotografia e poesia) são “coerentes” quando interpretadas isoladamente, e (iii) como um caso de “mixmídia”, porque, ao mesmo tempo, perdem “coerência” se analisados dissociados. Ele não parece se adequar bem a um caso de texto “intermídia” uma vez que foto e poema podem ser abordados separadamente. Mas toda esta conversa sobre a que classe pertence a obra deve funcionar apenas como ponta-pé inicial para uma abordagem cujo propósito é revelar a rede complexa de relações observadas.

Outra propriedade deste livro está relacionada a sua estrutura de pranchas soltas, não numeradas. Tal propriedade impede o observador de qualquer tentativa de sequencializar a leitura, ou o que pode ser interpretado como um deslocamento pela cidade. Impedido de criar focos de atenção privilegiados, o fotolivro “recria” no leitor a sensação de procrastinar pela cidade, imerso em acontecimentos sutis que só um olhar atento pode capturar. Feito de cenas cotidianas de Curitiba, Quarenta Clics “recria”, através da combinação de poemas e fotografias, o deslocamento descentralizado pelas ruas da cidade de Curitiba.

40 cliks 5

Quarenta Clics  materializa intersemioticamente o “príncipio” do haicai, o que é aparentemente insignificante, a experiência imediata, a brevidade, o aqui-e-agora. Os haicais de Leminski e as fotografias de Pires, irredutivelmente relacionados, capturam este instante “coloquial, livre e desimpedido”, como afirma Octavio Paz sobre a poesia de Bashô. E ambos, foto-poemas, quando combinados, permitem fazer novas conjecturas sobre a cidade.

A obra é uma “descoberta” de Ana Luiza Fernandes, pesquisadora do IRG, cujo mestrado foi defendido em maio de 2016, na UFJF. Ela dedica-se, no doutorado (Literatura Comparada, PUC-RJ), a uma detalhada revisão teórica e histórica deste gênero, fotolivro de literatura, no Brasil e América Latina. Publicações iniciais sobre o tema incluem: (i) Fernandes, A.L.; Vitório, A.P.; Queiroz, J. (2015) Quarenta Clics em Curitiba: Os haicais intermidiáticos de Leminski e Pires. Ipotesi 19, p. 14-27 (link); (ii) Fernandes, A.; Queiroz, J. (no prelo) Quarenta anos do fotolivro QUARENTA CLICS EM CURITIBA. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea.

4.0 (1)

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