Tradução Intersemiótica, Descoberta e Criatividade

A tese de que “traduções intersemióticas” (transmediação, transmutação, adaptação) são capazes de fornecer “nova informação” sobre seus objetos, que são os signos traduzidos, tem sido extensivamente explorada pelo grupo (IRG), em artigos, dissertações, congressos e projetos artísticos. Esta idéia teve desenvolvimento inicial nas colaborações com Daniella Aguiar (UFU), sua tese de doutorado (Dept. de Literatura Comparada, UERJ), e muitas publicações. Menciono aqui as mais importantes: Intersemiotic translation and transformational creativity (link), From Gertrude Stein to Dance: Repetition and Time in Intersemiotic Translation (link), Semiosis and intersemiotic translation (link).

Mais perifericamente, i.e., não como o principal componente do trabalho, outros artigos passaram perto desta tese: Intersemiotic Bestiary — Intersemiotic Translation of El libro de los Seres Imaginarios (link), com Mariana Salimena; An Intersemiotic Translation of a Mobile Art Project to a Photographic Essay (link), com Leticia Vitral e Daniella Aguiar; Poeta Comedor de Leões no Covil de Pedra (link), com Chia Lu, Guilherme de Oliveira Silva, e Mariana Salimena. (ver widget ao lado)

Em um trabalho solo (Tradução criativa, diagrama e cálculo icônico (link)), explorei esta ideia em uma direção diferente, com foco no fenômeno da tradução interlinguística de literatura — o critério operacional distintivo do ícone, como um signo de descoberta capaz de revelar “relações” no signo fonte, encontra grande afinidade nas argumentações de Haroldo de Campos, sobre o papel da tradução criativa como crítica e descoberta.

Afirmo neste artigo: “Vou explorar aqui a noção de tradução icônica, que Haroldo de Campos relaciona à tradução criativa, em uma nova direção, baseado em um critério operacional que associa os ícones aos diagramas, que são signos icônicos de relação. Tão logo um ícone seja observado como algo consistindo de partes inter-relacionadas, e uma vez que as relações estejam sujeitas a mudanças experimentais baseadas em leis, estamos operando com diagramas. Trata-se de um argumento conhecido que a tradução criativa recria relações de isomorfismos (ou paramorfismos) entre diversos níveis de descrição do signo traduzido. Esta ideia aqui é subsidiada pelo conceito operacional do ícone, capaz de revelar a forma definida de uma relação.”

Se um poema, por exemplo, funciona como uma “equação verbal” (cf. Jakobson defende em diversos trabalhos), uma tradução deve corresponder à recriação das relações que operam em um sistema multi-nível de restrições (sintático, morfológico, fonológico, etc). Isto significa que, em um poema, estes níveis restringem-se mutuamente. Tais relações (restritivas) são descobertas ou selecionadas (em termos de materiais criados, disponibilizados, escolhidos) pelo signo-alvo, que é a própria tradução. As restrições que atuam entre os níveis são reveladas como diagramas observados no signo-alvo, a obra traduzida. A metáfora usada aqui de “acoplamento” entre os níveis é uma sugestão direta, mas ainda mal desenvolvida, da ideia de “structural coupling”, que já aparece em diversos ensaios de Jakobson. De acordo com esta metáfora, um nível de descrição (ou certos materiais observados em um nível), está acoplado a outro nível quando seu comportamento altera significamente seu correlato. (Voltarei a tratar deste tema em outro POST.)

Defendi, neste artigo, que a tradução corresponde a “descoberta de uma relação”, a “urdidura subjacente” do poema, segundo Augusto de Campos, e que eu chamei de experimentação diagramática e “cálculo icônico”. O procedimento parece rigorosamente diagramático, no sentido Peirceano — o objeto de um signo diagramático é sempre uma relação.

O status atribuido, por Haroldo de Campos, à tradução criativa como “descoberta” baseia-se, segundo esta abordagem, em outra noção subsidiária. Assim, ela pode conduzir-nos a consequências ainda não exploradas. Estas idéias apontam para uma epistemologia icônica e diagramática da tradução, com consequências em uma agenda de investigação que pode ser detalhada, e deve ser exaustivamente exemplificada.

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